domingo, 31 de julho de 2016

passado a limpo (1)

31.08.... Tenho vontade de te falar. Anseio por tuas palavras, que, como flechas vêm de longe, acertam-me por dentro e me aplacam. Descuro da razão que justifique tal "querência" e isso me incomoda, muito me incomoda, pois não perscruto este sentimento no seio de uma linha contínua, a minha existência. Por isso sinto essas coisas como flechas que traçam suas próprias linha, e nem são as flechas quem a traçam, mas quem as atira. As tuas palavras me soam cálidas e me confundem, me fazem bem. Ainda que eu não entenda serem dirigidas a um de tempo certo, a um que nunca fica e cujas mãos só por acaso são tocadas. Ainda assim me fazem bem. E me confundem, porque entremostram, sem pejo, sem temor, o íntimo de quem as dedica: são como gotas de uma ferida a clamar por ungüento. Eu sei que elas me fazem bem, e anseio por elas. Mesmo fechado o envelope, ali na gaveta, eu espero. E aguardo abri-lo, já que ele me fala de ti, diretamente ao meu cérebro. E aguardo ainda um pouco, que depois de aberto, e lido, tudo é passado, fixo na lembrança; é quando me corrói a recordação de que o tempo dividido não foi de todo consumido. Fazem-me bem, só eu sei como! E não tens medo do que me dás, de te fotografares pra mim. Eu, de tempo certo e de passagem. São meigas, expressam uma adolescência que, de resto, nunca perdemos. Mas são fortes e vêm com botas de dono a pisar um terreno de que se apropriam sem timidez, sem indagações. Tu me chegas de longe e trazes o caos para o de perto, sem questionar de causas ou de fins. O que mais me instabiliza e me confunde é não ter respostas para os fins, não perceber o para quê. Com isso tu ficas, nesse contexto, sendo a única certeza; e, ainda que feito um vagalume, que acende e apaga, eu tenho a mais absoluta convicção de que ele vai acender de novo, sabendo que estou ali, completamente feito de espera e de olhos abertos. Era bom, já, que eu falasse. Não para retribuir, que se não retribui dessas matérias; mas para revidar! Persisto em ser preciso novamente um tempo comum, e me consome divagar acerca de como se iniciará: primeiro o cheiro, que já conheço, o olhar de entrega e desafio, o contato da mão nervosamente úmida, o teu pescoço e a raiz de teus cabelos junto á nuca, depois, a proximidade dos teus lábios, calmo e vagaroso, sentindo cada milímetro quadrado dessa junção, e a tua saliva, a tua respiração, os teus fluidos e o teu calor de dentro e a explosão de luzes, cores, como caindo ou voando... Quero te ver então o olhar só olhando, nua feito um lago escondido num vale e te sentir como canteiro onde há pouco eu estava enraizado. Eu tinha de falar. Arremessar como cardos as minhas palavras e te perfurar de mim, que fui invadido de ausência e falta de respostas. Talvez assim se abra um veio e a veia flua essa torrente, deixando-me leve, plano, livre desse excesso que me sufoca e me desaglutina. Não me sabia de espaços vagos, e não te sabia como água. Quero a lepidez das minhas pernas, a ligeireza dos meus olhos e a imediata resposta das minhas decisões. Todavia não posso prescindir da sede, do calor e do cansaço, se tu és água, sombra e relva macia, e do teu lado eu posso destacar um segmento da minha linha e, estranhamente, sentir-me mais a mim que de outra forma. E falei.

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