domingo, 31 de julho de 2016

passado à limpo (3)

22/09/.. 12:32 para ler dentro de um avião, quando do regresso à realidade. Aí onde você está o tempo não existe, ou se situa exatamente entre uma partida e uma chegada. A dez mil metros de altura a terra é uma ficção e o que há de concreto, unicamente, são as linhas que, se originando de você, tocam os pontos, na terra (?), que você deseja tocar. Aí um trubilhãio de pensamentos revolve e embaraça a sua cabeça e você nem sabe se partiu ainda ou se já chegou. O zumbido das turbinas, a artificialidade dos objetos, as comidas em estranhas embalagens são as únicas coisas que a prendem à realidade. Ali uma nuvem, acolá o azul do céu, lá embaixo a linha curva de um rio como que a abraçam, de início suavemente, e mais forte depois, e mais ainda, e a sensação de perda, e o assomo de uma dor indesejada tornam-na consciente de que você era absolutamente inteira, nova e feliz naquela pequena parte sua que nasceu de uma explosão, e que ficou aonde agora você já não está. Você continua seguindo uma linha reta, e de certa forma a conforta saber que já agora nem uma ação é fisicamente possível para você. Deixa que a levem como se isso fosse a absolvição de sua perda. Mesmo este sinais nesta folha, que expressam mensagem que só você decifra, levitam no papel, caem pela sua roupa, e você já não é capaz de discernir se vieram de ontem ou foram feitas para amanhã. O zumbido continua e a linha reta está sendo inexoravelmente percorrida até o seu destino. Acaso é válido indagar porque inexoravelmente? Terá sido inexorável a intersecção desses nossos dois mundo? Seria inexorável que nos arrancássemos um do outro, deixando em cada um de nós metade em carne viva, rubra de sangue, exposta, e dolorosamente inimaginável de cicatrizar? Terá sido, quem sabe, inconsciente mensagem o que nos fez superamos de nós em função do que se põe como atitude responsável e correta? Terá sido a inexplicável pasta cultural, em que nos desenvolvemos e que elege a dor e a renúncia como instrumentos do progresso, e que nos fez aceitar, bovinamente, o inexorável e imperscrutável desse negrume que já agora nos vai consumindo? E alguns há, poucos, que rompem essa teia, afrontam tal sistema e escapam ninguém sabe para onde. São os proscritos? São os felizes? Escapam para si próprios? Destroem e lançam, no mesmo estado em que estamos nós, os que a eles se encontravam ligados? Já gora o avião sacoleja , e é bom que o faça pois estes últimos pensamentos nos sacoleja ma nós por igual. Eu não vim trazer respostas, sou apenas, e sempre e por inteiro, a metade arrancada de você, de olhos ardendo e com grossas lentes de lágrimas que não me permitem enxergar direito; eu que nem nome tive, que não fui chamado uma vez sequer, mas que estive presente, que estou presente, que estarei presente toda vez em que você for capaz de se despir das roupas que lhe impuseram a pensar em você como uma unidade. Lá eu já estava, estive, estou, eu e você sabemos que estarei, sem nome e sem ser chamado, pois não se nomeia e nem se chama o que é, o que está, e o que sempre foi. 

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