Isso não é uma quebra de palavra: comprometi-me a não telefonar até Sexta, e não telefonarei; mas escrever, sabendo que você terá esta carta em mãos na Quinta, isto é, na véspera do dia marcado, e, quem sabe, podendo ser fator decisivo na implementação dois planos que nos satisfazem, isso eu devo fazer. Porque a decisão do silêncio, é a meu ver, é falha desde o início: jamais, por si própria, alcançará o objetivo desejado. Se provar que a falta foi suportável, ou foi nenhuma, não foi o silêncio a causa, mas a diminuta expressão da minha imagem em você a razão desse efeito. Se foi dolorosa, porque o pensamento grudou no silêncio como se quisesse fendê-lo em busca de alguma mensagem, então o sofrimento foi inútil. De qualquer modo, se a suas razões estão a exigir conduta no sentido de me expurgar de você, da sua vida, do seu dia a dia, ainda penso que o modo mais eficaz é uma rápida e incisiva "carga de cavalaria" nas "fileiras do inimigo". Destruindo suas linhas de suprimento e de comunicação. Mas sempre há de ficar a destruição, os pastos queimados, os jardins pisoteados, o vazio; e há de levar muito tempo antes que volte a ser como antes. Será que antes era melhor, mais colorido e atraente do que o turbilhão de cores, desejos, desejos e sentidos em que hoje você se encontra? Só você tem ou terá resposta para essa questão. Penso, também, que os quadros que constituem essa vida têm, sempre, dois sentidos: um aparente, outro obscuro. O primeiro diz respeito à apreensão média que todos realizam no ato de conhecer o mundo: é plana, envolta nos padrões e conceitos que definem um grupo social determinado, ao qual nos integramos. O segundo é interior, é pessoal, é tridimensional e representa o permanente conflito de afirmação entre o eu e o mundo. É o divino anseio de ser um, de querer sentir o chão sob os pés e saber dos rastros. E é difícil, muito difícil a tentativa de conciliar esses dois sentidos. O êxito é improvável, e aí residem os desencontros e frustações de todos quantos não souberam vencer este dilema. Este é o berço de todos os poetas e músicos e artistas. Também dos loucos e dos marginais. Dos vadios e das prostitutas. Desse útero nascem, igualmente, alguns poucos, raros, que assinaram a paz com os dois sentidos e são felizes. Nem afrontam em demais o mundo, nem permitem que os violem em sua individualidade. Simplesmente velejam ou flutuam estampando a paz e a segurança em suas faces douradas e iluminando a noite com os seus olhos de sol. Não fazem o mal nem apregoam o bem. Sabem que poucos, muito poucos terão ouvidos de ouvir e que não se maleficia os que não podem atingi-los. Daí eu escrevo. Eu sei e você sabe em que grupo eu me encontro. Antes eu a absorvia de um conjunto de forças contrárias que não me traziam sossego. Eram decisões a serem tomadas, que rompiam o equilíbrio em que me encontrava. Nesse quadro você era a fonte, a sombra, a relva, e eu sabia que todas asa imagens que fizessem estariam eivadas dessa aura, por mim criada, que a separava dos meus problemas e que a colocavam num pedestal. E esta era uma visão distorcida do sentimento e da realidade. Hoje eu destrocei aquela gama de problemas. Você já não é o meu bálsamo nem minha âncora. Entretanto, agora você é real, tem suas dimensões próprias e penetra em mim por sua própria força. Hoje você é muito maior e mais querida e o sentido que apreendo em você não é criado pelas circunstâncias, mas é cru, natural, tem cheiro de terra e é o que jamais poderia ser. Eis que a decisão do silêncio é inócua, não me fere nem me alegra. Sei que do outro lado da linha está você. Ainda que não desconheça estar no meio do seu dia a dia, ao final da linha o seu sentido é meu, é interior, e não me importa agora a limitação do tempo: é fora do tempo o que obtenho quando estamos juntos. E essas coisas não se medem com relógio. Não sugiro nada, não a aconselho a nada. Sei que não consigo o que quero sem que você concorra para isso. Mas não posso e não devo conduzi-la e aos seus passos para esse objetivo. Não haverá mérito para mim e não saberá você ussufruir dessã junção. Você é a minha fruta, eu sou o seu fruto. Nós não temos empregados, ou prepostos que nos façam a colheita, esta é uma lavoura de um dono só, eu de um lado, você do outro. A colheita é ato de amor e de dor e concerne apenas aos que se relacionam nesse mister. Não minimizo os seus problemas, não desconheço as suas dificuldade e nem relevo as suas alucinações oriundas dessa ausência. Todavia não descuro que você é sã, hábil e conhece, num momento, os seus anseios. Realizá-los é parte do seu caminho para si própria. Ou cerrar dentro de você esse universo em prol do primeiro sentido: Só que restará, nós sabemos, uma fone que não jorrou nem para você, nem para ninguém. Eu não posso lhe prometer nada mais do que tudo o que pudermos conseguir quando estivermos juntos. Mas algum movimento seu é necessário. Não pense que a estou deixando só: simplesmente na minha cabeça você nunca está só, está comigo, está em mim e eu estou em você.
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